🏝 A ilha

Beach view in St. Lucia

Uma palavra curta, tão estranha ao se ouvir, mas que guarda nela uma magia infinita. Rodeada por água, por definição, a ilha é uma metáfora do controlo, da calma no meio do desconhecido. Ou talvez esta seja apenas uma de muitas interpretações…

A falta de escrita nestes dias de paraíso parece nefasta para a inspiração. São aqueles textos, sobre os quais pensamos demasiado que acabam por ser mais difíceis e mais trabalhosos de escrever. Após uma semana numa das muitas ilhas do nosso planeta, tento relembrar e imortalizar aquilo que vi, aquilo que ouvi, aquilo que cheirei, aquilo que toquei…

Nos braços do calor, senti primeiro o cheiro da queimada, o cheiro do famoso “jerk chicken” das Caraíbas. Parece ser assim que a ilha de Santa Lucia nos recebe e nos deleita com tons de verde e azul que parecem surreais. Entre as minhas cores favoritas, encontramos outras, mais esporádicas, mas igualmente coloridas, numa multidão de pássaros e criaturas exóticas. Os pássaros sobrevoam as palmeiras e posam de ramo em ramo, de folha em folha, de flor em flor. Fico atento a eles, sem julgar, apenas ouvindo como eles cantam, num silencio quase absoluto. Para acompanhar a orquestra, as ondas do mar partem sobre as rochas e salpicam sobre a minha cara.

Os insulares têm sempre as suas peculiaridades e nesta ilha, apesar de dominada pelo turismo, sente-se o passar do tempo na floresta tropical e entre os seus bosques abrem-se pequenas janelas para os dois mares que a rodeiam. De um lado, a calma das Caraíbas, do outro, as ondas do vasto Atlântico… Uma dualidade fascinante que facilita a imaginação daqueles que tentam inventar histórias sobre aqueles que antes aqui viveram. Parece fácil imaginar batalhas épicas nestes mares, no tempo em que os poderosos do mundo tentavam conquistar o desconhecido, o paraíso. A desigualdade continua visível, fruto dessa conquista e a multidão de cicatrizes que esta deixou continua a ser óbvia. Entristece-me que outros humanos tenham de viver com humildade e pobreza nas suas terras natais, enquanto ricos (e gordos…) ocidentais monopolizam o melhor que tem para oferecer. No que pode parecer um insulto fácil, sinto que há um fundo de verdade naquilo que observei.

Nestas águas verdes e azuis vivem também peixes com todos os tons do arco íris. Perco a concentração para pensar na necessidade de ler mais em Português, e volto de novo a preocupar-me com a qualidade da escrita. Por vezes, até quando longe da rotina, preciso de lembrar a minha mente que é possível (e necessário) descansar. É a minha própria mente que impõe as barreiras. Ao mesmo tempo, surge um paradoxo, pois é esta sensação de imperfeição que me empurra a escrever mais e espero que melhor.

O tempo parece passar de outra maneira do outro lado do mundo. Rápido mas sereno, tranquilo, com os seus avisos e com pausas. O sol desce pouco a pouco e ganha a sua cor alaranjada. Tons de vermelho com fundo azul… mas minto, pois a escrita também é mentira e o Sol ainda radia com a sua cor de ouro, numa tarde que acaba de começar. Eis mais uma digressão da minha mente. Ao longe, umas nuvens ameaçadoras aproximam-se a passo de caracol. A areia fina das praias fica presa nos meus pés como se quisesse ir descobrir o mundo, como se cada grão de areia tivesse por sonho ser um grão de outro lugar. Afinal, para aqueles que aqui já estão, a curiosidade vem de fora.

Olho intensamente como uma onda e um insecto caminham lado a lado, cada qual com a sua missão, com o seu destino… ambos respeitando o espaço que lhes é dado, sem preocupação alguma com o mundo alheio. Espero, andando, pelo pôr do Sol, em busca de outras criaturas ou qualquer pista sobre elas. O mais fascinante da Natureza é a quantidade de descobertas que se podem fazer apenas prestando atenção. As fotografias podem imortalizar os momentos mas nunca serão mais verdadeiras que a própria realidade. Talvez consigam reproduzir uma memória, que mesmo quando recordada é apenas um retrato do que já foi.

De repente, uma chuva torrencial esvazia as nuvens que se formaram ao longo da noite anterior. Uma chuva forte, com personalidade, que nos força a ficar abrigados. Mas que graças ao calor, acaba por ser mais uma jóia deste lugar que é tão único. No que podemos modernizar como “férias”, acabei por conhecer e aprender coisas novas diariamente. Neste processo ainda me custa não julgar aqueles que tudo têm e tudo abusam… ao mesmo tempo talvez seja graças a eles que posso estar aqui neste lugar…

Na distância, os dois Pitons, marcas inequívocas da ilha de Santa Lucia, distinguem-se como se fossem dois vulcões mas sem o serem. Na realidade, são eles que se encontram rodeados pelo que antes dera origem a este pedaço de terra. A terra que veio do mar, e depois do fogo, para depois ser pintada de verde pela chuva e pelo Sol, e finalmente detalhada com pequenos tons de laranja, vermelho, amarelo pela Natureza. A realidade feita aguarela sim, numas palavras que fazem pouco sentido mas nas quais tento encapsular tudo aquilo que aqui vivi. Talvez volte algum dia para ver este verde… nos confins da minha mente, não deixo de pensar naqueles que aqui vivem, e como vivem, muitos deles felizes. Pergunto-me se a felicidade de alguns vem simplesmente da ignorância do mundo alheio? Não me cabe a mim a salvação, somente o respeito e a empatia. O sol desce, pouco a pouco, numa escada que o leva a mergulhar no mar, eventualmente, uma escada que o sol desce, sereno, antes de desaparecer. No outro lado, a lua espera, paciente, para ser a “estrela” da noite. Estrela essa, disfarçada, entre muitas outras que a rodeiam, apenas mais pequenas na nossa percepção.

Sinto-me incomodado pelos risos e conversas de outras pessoas perto de mim, algo que acaba por ser só interno à minha mente, pois ela julga, demasiado, tudo aquilo que se passa. Tento concentrar-me e volto de novo a olhar para o Sol. Volto a ser salpicado por uma onda, agora com uma cor mais escura mas sempre com a sua fiel coroa branca.

Acordo. E é mais um dia de trabalho.